4 de fev de 2009

Equação difícil de resolver

Na última terça, 3 de fevereiro, o jornal Folha de São Paulo (Cotidiano c8), publicou uma reportagem de página inteira discutindo dados chocantes, apesar de não se mostrarem novidade alguma. Relatam na matéria, que o Brasil forma cada vez menos professores para disciplinas do ensino básico. A queda é de 4,5% a menos que em 2006 e 9,3% em relação a 2005. Estudo do governo federal mostra que 300 mil pessoas dão aula no país sem nenhuma licenciatura, outros 300 mil atuando em áreas diferentes do que cursaram, como por exemplo sociólogos dando aulas de história ou engenheiros ministrando matemática. Entre as maiores quedas na formação de professores, estão as áreas das chamadas Humanas: letras, geografia, filosofia, os estudos sociais. Química está entre as quedas, mas as porcentagens de disciplinas como matemática (+ 4%), física(+6%) e história(+4%), não mostram índices animadores. É preciso discutir com mais atenção alguns aspectos não relatados na reportagem: 1- Pessoas dão aula sem ter formação docente há muito tempo, pois não há uma rede de formação que seja capaz de cobrir as necessidades do território do tamanho do Brasil. Em algumas regiões as dificuldades vão desde a locomoção(dias de viagem de barco, por exemplo), infra-estrutura(não há luz elétrica, bibliotecas, etc.), recursos financeiros, espaço físico, até recursos humanos capacitados. 2- A lei permite que pessoas formadas em determinados cursos ministrem aulas em matérias afins. Engenheiros podem sim, dar aulas de matemática, historiadores podem ser professores de geografia, apenas é necessário fazer o curso de formação de professores, a licenciatura. E é o que acontece quando o funil do mercado de trabalho expulsa os profissionais de suas áreas de origem e a alternativa desses profissionais é a sala de aula. Seria interessante se perguntassem a esses profissionais se estão na sala de aula por que sempre sonharam em ser professores. Há anos se sabe da carência de professores de algumas disciplinas, que ocasionam horas e horas de aulas vagas, ociosidade dos alunos, e consequente queda na qualidade. É quase óbvio, quase, porque parece que para algumas pessoas nem é tão óbvio assim, que se o universitário investe seu tempo e dinheiro com a formação, no futuro espera receber em troca uma boa perspectiva profissional, boa remuneração e ao menos um pouco de respeito. Cansamos de ouvir histórias de professores recém formados entusiasmados com sua nova profissão terem o retorno nem tão entusiasmado de seus colegas, que colocam gelo na fervura com afirmações do tipo: - Nossa, você é novo por aqui, não é? Espere daqui há uns anos e vai ver... ou então: - Você está chegando agora? Não aguento mais, não vejo a hora de me aposentar... O professor vem sofrendo ao longo dos anos um processo gradual de desprestígio e perda de status social. Não é mais visto como um profissional imprescindível formação de novos cidadãos, nem como peça importante no processo de transmissão de patrimônio cultural. Chega ao ponto de receber até agressões físicas em sala de aula, notícias cada vez mais comuns nos jornais. Apenas como comparação, no Japão durante a segunda guerra mundial, os últimos cidadãos convocados para servir foram os professores. Na urgência de reconstrução pós-guerra do país, estes seriam os personagens principais a se recorrer. Além disso, temos a questão da remuneração. Gostaria de saber quem escolheria entre receber o inicial de salário oferecido por uma escola pública, que em alguns estados chega a ser de R$500,00 ou a remuneração oferecida por um concurso público que pode chegar a R$4500,00 mensais. E nem estamos falando da esfera privada. A comparação é desleal. Enfim, abram seus livros na página correta. É necessário solucionar a equação. Quem vai se aventurar?

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