31 de mai de 2009

Poética (II)
Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
- Entrai, irmãos meus!
Vinicius de Moraes
Rio, 1960
Ando escrevendo bem pouco. Isso acontece porque estou envolvida em um fascinante projeto de um livro. Quem escreve não sou eu, mas o maridão. E eu estou auxiliando realizando importantes entrevistas e contatos. E pesquisando sobre memória. Memória social, histórias de vida. Simplesmente delicioso ter contato com tanta coisa bonita e importante prá nossa história e cultura. Sei que ficaram curiosos. Na hora certa vão saber. O tempo.... a tempo.

10 de mai de 2009

Pra minha mãe

Pensei em dar presente. Mas presente é comercial, muitas vezes se perde no tempo e no uso diário. Pensei em flores. E talvez as dê. Flores são um pedaço de natureza, presente vivo. Adequado prá quem te deu a vida.
Mas ainda é pouco.
Sempre será pouco. Sei disso por ser hoje, mãe também. Ainda não tenho certeza se é do dna das fêmeas a disposição de doação e abnegação às crias. Talvez sim. Fato é que sempre vou achar pouco tudo o que fizer por ela.
A minha, particularmente, tem aquela força que vejo em poucas, apesar das dores físicas pelas quais ela passa. Agora entendo bem, pois tenho as mesmas. Mas ela ainda hoje foi cantar na rua, se aparecer uma festa, sei que ela vai dançar e rir. Será que um dia consigo ser assim?
Foi ela que me ensinou a ser quem sou. Lembro dela na porta da sala de aula no primeiro dia de escola, procurando a certeza de que eu estava bem. Dos dias em que ia me buscar e tomávamos ônibus e íamos conversando. Me alfabetizou, foi quem me ensinou a ser a profissional, que mesmo afastada, ainda tento ser, foi quem sempre me perguntou se eu tinha certeza de minhas decisões, quem criticou quando precisava e por fim, se eu estava feliz com minhas escolhas. Sempre.
Comigo nos principais momentos da minha vida, espero que um dia eu possa encontrar algo que seja muito especial prá ela, além do meu amor, claro. E ainda assim, não será suficiente.
Beijo só prá você D. Yvone.

6 de mai de 2009

Os porquinhos, os lobos e o caldeirão da bruxa

Em artigo publicado pelo jornal The Guardian(27/04/2009), Mike Davis, especialista em relações entre urbanismo e meio ambiente discutiu de forma interessante as causas da tal gripe que anda nos assustando. Mike nos alerta sobre a fé, agora abalada, na condição da O.M.S. em conter essa epidemia misteriosa. Talvez as fronteiras fiscalizadas não sejam suficientes para que a epidemia se alastre.
Gripe misteriosa, mas nem tanto. Ele cita as condições dos abates em relação às condições de saúde e higiene, a superpopulação dos criadouros, e o uso sem critérios de medicamentos para frear as bactérias, vírus, e todas as doenças que são geradas por esse verdadeiro caldeirão da bruxa. Ingredientes como esterco, calor, muitos animais concentrados por metro quadrado, são uma maravilha para a cultura patógenos em constante mutação.
Vírus não são contidos com antibióticos. Laboratórios têm de pesquisar dias, às vezes semanas para identificar seus genomas , detalhe nem sempre disponível para todos os países, perdendo-se muito tempo com o transporte, a espera de resultados para tomada de decisões.
Enquanto isso, esses vírus cumprem seus ciclos e sofrem mutações, a natureza portanto, andando passos sempre a frente das ações do "ser humano" complicado que somos.
Aliás, prá quem não sabe, é bom lembrar que entre criações também é comum a proliferação de verminoses, transmitidas entre os porcos através de fezes, que ao serem limpas sem cuidado vão contaminar os mananciais de água que por sua vez, contaminam os peixes consumidos por humanos.
O autor cita o caso do contágio de dezenas de pescadores por um desses protozoários na região dos estuários da Carolina do Norte, que também matou um bilhão de peixes. E diz: "Qualquer melhora ma ecologia deste novo agente patógeno teria que enfrentar-se com o monstruoso poder dos conglomerados empresariais agrícolas e pecuários[...]. A comissão falou de uma obstrução sistemática de suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas algumas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento de pesquisadores que cooperaram com a investigação".
O mundo já está aquecendo mesmo, ótimo para o ferver de caldeirões...
Nós, talvez, acabemos fervendo junto.
E pode crer, não vai dar feijoada.