21 de jun de 2010

Abelhas e figurinhas

Gosto de abelhas. Nunca me fizeram mal... Fora umas duas picadas acidentais e o receio de ficar diabética de tanto doce do mel, elas são insetinhos interessantes.
Mas não deixo de pensar nelas a cada partida de futebol esses dias...
Ainda não entendi porque os criativos africanos não inventaram nada melhor que aquilo.... Com tantos instrumentos de percussão disponíveis, torturam a todos com uma nota só.... como enxames de abelhas!
Será por isso tão poucos gols???  Culpa da Jabulani???  Mistério...

Fora isso, só se pensa em trocar figurinhas. Onde se chega, o assunto é o mesmo. Já completou seu álbum? Quanto custa um álbum? Já fez sua conta?

E quem acabou de comprar as TVs de LCD? Será que vão processar quem já anuncia as TVs de 3D???? Mistério no ar...

8 de jun de 2010

Dia dos namorados 2

O verbo no infinito

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver , ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
Vinicius de Moraes

7 de jun de 2010

Dia dos namorados 1

 Vocedeeusapararnãodeu
Zé 1986/87

O amor é o tema predileto de muitos poetas e poetisas, tempo afora.
Já que é difícil escolher um, vou publicar alguns, que traduzem esse 'estado' especial em que ficamos quando estamos amando...


Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobresinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é , ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...
Florbela Espanca
1923

4 de jun de 2010

Corpus Christi

Moradores de Rua e o Sombrio Clima Fascista de Sampa
José de Almeida Amaral Junior - em colaboração muito especial

Vocês que nos acompanham hão de lembrar que falei aqui sobre o caos de se viver nesta cidade ( http://www.mundolusiada.com.br/COLUNAS/ml_coluna_277.htm artigo escrito para comemorar o aniversário dela)  e também sobre a sensação que tinha, ao andar pela rua Vergueiro em direção à Catedral da Sé na volta do trabalho, do número crescente de pessoas maltrapilhas, ao longo do caminho, sentadas com seus olhares perdidos encostadas nas paredes dos prédios ou mesmo dormindo sono profundo, abrigados por cobertores rasgados, puídos ou, simplesmente, sob caixas de papelão abertas (http://www.mundolusiada.com.br/COLUNAS/ml_coluna_294.htm). Cenas de nenhuma dignidade humana em um trajeto não muito longo. Apenas um exemplozinho nos inúmeros dentro desta megalópole. Refletia sobre a inexistência de uma política pública eficiente e respeitosa de proteção a essa gente que caiu à margem da sociedade.
Esta semana os jornais publicaram uma pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas - Fipe dando contas que nos últimos 10 anos, o total de pessoas que vivem em situação de rua em São Paulo cresceu 57%. E constataram que os moradores de rua recolhidos aos abrigos municipais saltaram de 3.693 (45,7%), em 2000 para 7.079 (51,8%) em 2009. E os homens são maioria (86%). Foram feitas 526 entrevistas com essas pessoas e, nessa amostragem 9,5% informaram que não sabem ler ou escrever. 62,8% declararam não ter completado o ensino fundamental. 74,4% afirmaram consumir álcool e drogas sendo que a perda do emprego foi o principal motivo apontado para justificar a permanência nas ruas. Moram ao léu ou dormem em albergues municipais 13.666 pessoas. Centenas de municípios no país não têm essa quantidade de habitantes. E mais da metade dos moradores nasceu no estado de São Paulo. Total demonstração de desilusão, de completa sensação de abandono por seus grupos mais próximos. Derrotados, culpados e sem qualquer auto-estima. Querem ser apagados na ‘cidade que não pode parar’.
A concentração de renda é comprovadamente grande por aqui. É um sistema que não ajuda na distribuição e explora ao máximo sem contrapartida. Inúmeras pessoas vivem no setor informal, no limite das possibilidades, sem amparo, sem qualificação. É a receita para a barbárie prosperar.
Há três semanas seis moradores de rua foram mortos em mais uma chacina. A 5ª do ano. Desta vez na região do Jaçanã, zona norte da cidade. As vítimas dormiam sob um viaduto na altura do quilômetro 86 da Rodovia Fernão Dias quando cinco homens armados chegaram em três motos e atiraram várias vezes contra eles. Covardia plena. Nesta semana apareceu uma campanha para expulsar pedintes na região de Santa Cecília, pressionando restaurantes e ONGs a não doar comida para o povo da rua. Uma passeata apoiada pela Arquidiocese de São Paulo foi realizada para protestar por tais atos. Atos de intolerância, que remontam ao fascismo. E são reforçados pelos mais radicais ao notarem que as autoridades públicas midiáticas ajudam nesse sentido. Só um exemplo. Um recente prefeito da cidade, que não concluiu seu mandado para candidatar-se ao governo estadual, teve como um de seus primeiros atos, sem maiores constrangimentos, mandar cimentar com pedriscos uma rampa sob um túnel na Avenida Paulista, para evitar que moradores de rua pudessem dormir ali mais abrigados. Afinal, fica mal naquela valorizada região, cartão postal, ter essa mancha agredindo o olhar dos inocentes passantes. E, apenas para aproveitar a deixa, mas, seguindo a linha do raciocínio, lembro que o governo estadual é dominado há vários mandatos, ininterruptos, pelo PSDB. E, sintomático, o Datafolha acaba de publicar o perfil ideológico do eleitor tucano no país: 51% declaram-se conservadores ou, mais precisamente, ‘de direita’ e 17% assumem-se de ‘extrema direita’, o percentual mais radical entre as siglas pesquisadas (http://www1.folha.uol.com.br/poder/742942-maioria-dos-eleitores-do-psdb-diz-ser-de-direita.shtml). Preocupante.
É preciso notar que nosso mundo globalizado, desde o final dos anos 1980, com a queda do ‘Muro de Berlim’ e a crise do socialismo real, foi dominado por uma intensa ideologia individualista, utilitária e de defesa intransigente das leis de mercado. Tão poderosa que, para muitos intelectuais, essa entidade tornou-se uma espécie de divindade contemporânea, que a tudo responde, mas ao mesmo tempo ordena intensos sacrifícios e não perdoa os ‘menos aptos’ às suas exigências. Há assim uma situação onde a lógica revela o consumidor ter mais importância que o cidadão. Em outras palavras, o ter sobrepõe-se ao ser. E quem tem é superior aos demais porque foi abençoado por esse deus plutocrata. Um darwinismo social apontando vencedores e derrotados. E em São Paulo tal situação cruel se revela, se explicita, num brutal contraste com a riqueza da mais importante cidade do hemisfério sul. Quem tem olhos que veja. Esta história de violência precisa mudar.

Professor universitário em Ciências Sociais
Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo