11 de out. de 2011

É dia.



Nas esquinas, nas ruas,
Nos abrigos para proteção,
Nas filas de adoção ou nem isso,
Das que nunca irão ganhar um presente,
Das que apanham sem saber por que,
Das que moram nas marquises em casas de papelão e comem restos.
Das viciadas vagando no centro, que não sabem nem seu próprio nome.
Também é Dia.

17 de ago. de 2011

CHARLES NÃO LEVA A VIDA NA FLAUTA


CHARLES NÃO LEVA A VIDA NA FLAUTA

Quando a cantora soul londrina Amy Winehouse há pouco morreu aos 27 anos houve uma comoção generalizada. Toda a mídia repercutiu o fato e uma multidão correu para frente de sua residência, assim como para as gôndolas das lojas de música a fim de adquirirem os seus dois únicos trabalhos. Dona de uma voz com um timbre bastante especial Amy Winehouse foi, então, guindada à condição de 'diva' e 'maior estrela da música pop' no século XXI. Sua passagem jogou seus discos para o topo na parada de sucessos britânica, provocando reedições e o estímulo para que se 'raspasse o tacho' de gravações não utilizadas ou ainda em elaboração a fim de se construir um álbum póstumo. O Daily Mirror falou em material para 3 discos. Coisa para total delírio e deleite dos fãs. E, claro, da própria indústria fonográfica, sempre cheia de boas intenções.

Amy Winehouse, filha de um casal classe média cujo pai taxista gostava de jazz, foi outra vítima do sistema que envolve o show business. Mais do que o seu punhado de Grammys pelo segundo disco, "Black to Black" (2006), inegavelmente uma grande obra do pop contemporâneo, a moça foi extraordinariamente divulgada e conhecida pelas suas tristes imagens patéticas, fora de si, bêbada, drogada, em processo de emagrecimento, exploradas até a última gota pela imprensa, pela máquina da indústria de diversão, sem reflexão cabível, num total oba-oba.

Chega, então, o desenlace óbvio, e consigo as hipócritas conclusões: ‘mais uma que vai tão cedo...’ Amplia dessa maneira o fúnebre time dos 27 junto a Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones, Kurt Cobain entre outros que partiram tão jovens. Todos inspirados e amados músicos que, após a frenética vida de popstars, acabaram vencidos por esse liquidificador psicológico, sendo como que sacrificados ao sistema-divindade completamente insano que foram introduzidos. Frágeis e entregues, morrem sozinhos.

Coincidentemente, dias atrás, o jornal Folha de São Paulo publicou um artigo mostrando a situação precária vivida por um outro músico, este brasileiro e de qualidade formidável, Charles Pereira Gonçalves, o Charles da Flauta. Confesso que há cerca de dois para três meses já estava tendo noticias dele através de conhecidos em comum, gente de grande coração da Escola Municipal de Música, que o avistaram e o contataram no Centro Velho, sobrevivendo debaixo de um viaduto em total mendicância.
foto- Agenda do Samba & Choro

Charles nasceu em uma família humilde, mas ela tinha algo de especial. Os meninos desenvolveram grande talento musical que logo foi explorado pelo pai, na intenção de diminuir as dificuldades da vida. Ele e irmãos, pequenos ainda, sob as vistas do pai, iam para a cidade tocar nas calçadas, para capturar os ouvintes, os transeuntes que sempre passam apressados em seu quotidiano. Mas, com os meninos, com o som produzido por eles, algo de diferente ocorria em meio à selva de pedra paulistana, aos seus ruídos incessantes e, assim, eram obrigados a parar para ver e ouvir. Aplaudir e, claro, dar uma colaboração, um cachezinho, pelo espetáculo bonito e em lugar tão inusitado. Charles é um virtuose. Um flautista excepcional cuja categoria foi reconhecida por talentos inquestionáveis como os mestres Altamiro Carrilho e Toninho Carrasqueira. A ele foram então dadas oportunidades. Aos 14 anos gravou um antológico LP de choro, em 1988, cujas opiniões chegaram ao ponto de dizer que o moleque era uma reencarnação de algum flauta de alto nível. E surgiram então as chances de estudar fora, com bolsa, na Europa. Grande oportunidade. Tudo, assim, parecia caminhar para um final feliz, como uma história de contos de fada ou de cinema. Porém, havia um obstáculo que se tornou intransponível para ele. E, desde o início dos anos 1990, seu rumo foi outro, muito diferente. E, cruel.

O senso comum acredita que a droga é algo que, quando o sujeito passa a consumi-la, ele a abandona quando quer. Assim, como se fosse um refrigerante ou um chiclet de bola. O sujeito diria: - "Chega!", e pronto, estaria acabado. Ledo engano. Lamentavelmente a coisa não é assim. Isso é um profundo equivoco. Charles encontrou a maconha e uma rede de possibilidades que lhe facilitavam o acesso. Grande músico, muitos convites, tapinha nas costas, noitadas, más companhias, estrutura psicológica frágil e respaldo insuficiente. A coisa assim foi ganhando vulto até não poder mais. Hoje ele é consumidor de crack. Já foi preso, perdeu suas flautas transversas, ficou sem recursos e, todas as vezes que dispõe de algo, acaba sendo levado pelo ambiente que o cerca. A vida nas ruas é muito áspera e sem garantias de amanhã.

De acordo com a Faculdade de Medicina da USP a dependência química é uma síndrome caracterizada pela perda do controle do uso de determinados agentes psicoativos. Eles atuam sobre o sistema nervoso central, provocando reações e estimulando o consumo repetido dessa substância. Dependência química é uma das doenças psiquiátricas mais freqüentes da atualidade. E as pesquisas do Hospital das Clinicas mostram que está se ampliando o uso de crack em relação à cocaína. Ele atinge o sistema nervoso central de maneira mais rápida e intensa que a droga aspirada. Gera uma dependência grave e de difícil tratamento. Recaídas são freqüentes: 50% nos seis primeiros meses e 90% no primeiro ano. É, portanto, uma doença crônica. Não é uma opção do sujeito.
Psicoterapia e farmacoterapia são as duas abordagens para se lidar com o caso que deve contar com a ajuda e motivação ao redor do paciente, pois os dependentes que não contam com apoio intenso e seguro acabam por cair no desemprego e chegar às vias ilegais, ampliando a chance das mortes por overdose, homicídio ou suicídio. Dizem os especialistas da USP que mesmo após o tratamento e a abstinência da substância psicoativa, não se considera curado o paciente.

Charles dá claras indicações que deseja sair dessa situação em que se encontra e retomar o caminho anterior. Ele é educado, conversa bem, procura manter asseio na situação em que se encontra, chegando ao caso de lavar-se pelas imediações para poder encontrar com os seus conhecidos. Ao ganhar uma flauta soprano, discutia sobre as condições técnicas entre o modelo germânico e o barroco como facilidades para se tocar choro. Fabuloso. Um patrimônio da musica paulista. Charles é um grande artista que está à deriva e precisa, de novo, de auxilio sincero.

Amy Winehouse agora já encerrou a sua história nesta terra. Charles Pereira Gonçalves, que acaba de aniversariar neste 13 de agosto, não pretende ter outros paralelos com ela. Quer muito, como confessa aos mais próximos, voltar a trabalhar e a viver seus dias com dignidade, produzindo. Seu sopro, mesmo que com apenas um pulmão, ainda enche de encanto o espaço por onde se apresenta com sua flauta. A sociedade deve se esforçar para recuperar este talento e evitar o pior. É uma questão dura, porém, clara: não basta somente ele querer. É preciso que o entorno lhe estenda a mão e o salve também.

São Paulo, 16 de agosto de 2011
 
José de Almeida Amaral Junior

Professor universitário em Ciências Sociais

Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação

Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line e das emissoras Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz e Cantareira FM 87,5 de São Paulo.




















27 de mar. de 2011

Clic - Mais fotografias perdidas

          Dessa vez a perda foi grande, apesar de às vezes pensar que somos sonhadores demais, querendo que as pessoas vivam eternamente. Algumas deviam sim, estar mais entre nós. Outras entendem bem a mensagem, e sabendo que não duram prá sempre, deixam sua marca em trabalhos, estes sim, esternos.
           Esse é o caso de Thomas Farkas.
"Fotografia, para mim, é o melhor jeito de aproveitar a vida."  Thomaz Farkas, aos 86 anos.
           Havia acabado de inaugurar nova exposição e lançar livro no Instituto Moreira Salles em São Paulo, e nos deixou na última 6ª feira, dia 25.
           Nunca saia de casa sem a máquina, o que me faz pensar também em sua coragem, considerando os dias de hoje. Talvez seja característica de fotógrafos hungaros, como seu compatriota Robert Capa, que  já citei em postagens anteriores. Perguntado sobre isso, Farkas disse que os hungaros falam uma língua complicada, que ninguém entende, e por isso comunicam-se bem por imagens. 
            E como.

A memória e as ondas do mar

Foi sábado. Ao ler as notícias no jornal, topei com uma foto que me marcou e inspirou. Tenho escrito pouco, por pura falta de inspiração, mais que por falta de assunto.
Não encontrei a foto mencionada para publicar aqui, mas essa que ai está traduz o sentimento.


         Pessoas vitimadas pelo tsunami no Japão, têm em uma sala, estendidas em mesas forradas, niponicamente organizados, os álbuns de família encontrados na grande confusão de escombros causados pelas ondas do mar.
Memórias resgatadas.
          Memória é um tema de estudo fértil e bem explorado por diversas áreas das ciências sociais e biológicas. Pode se falar desde os aspectos fisiológicos e o funcionamento neuronal, na medicina, das estratégias para que a memória seja uma função bem utilizada no dia a dia, na psicologia e recentemente com a neurociência, até os aspectos ligados ao social, registro de experiências cotidianas ou institucionais, preservação e patrimônio histórico e geográfico, com as análises da antropologia, sociologia e história.  Em todos esses casos estaremos falando de emoções, vivência e de afetividade.
Ao tentarmos definir memória, segundo o dicionário Aurélio, encontraremos do latim mnemós: a faculdade de reter as idéias, impressões e conhecimentos anteriormente adquiridos. Esta sempre será uma forma de gravar, registrar a experiência vivida, como a marca em um bloco de cera, um papel carimbado com a marca própria do significado que aquela vivência assumiu para o indivíduo. Mesmo que muitos a tenham compartilhado, essa marca é pessoal, exclusiva, e é registrada de forma única. E é algo que muitas vezes não é passível de documentação, portanto, pois é sentimento, emoção, subjetividade. Mas as fotos assumem esse papel melhor que qualquer outro documento. 
Aprendemos escutando, imitando, lendo e observando, praticando.  Quando nos recordamos da canção cantada para nós no berço e reconhecemos a voz de nossos familiares, é quando nos percebemos parte de um contexto afetivo, social e cultural, que nos identifica e nos abriga. Quando vemos fotos de nossos momentos e pessoas queridas, resgatamos nossa história. De onde viemos, porque temos essa aparência, que lugares, fatos, eventos nos formaram. Assim, nos tornamos seres humanos.
É por isso tão importante esse resgate. Entre as recomendações e depoimentos de pessoas que tiveram que abandonar suas residências em situações de crise anunciada, está a de recolher além documentos ou bens importantes, as fotos de família.
Sua identidade. O significado de ter sobrevivido. E prosseguir, admirando as ondas do mar.

24 de jan. de 2011

Nada como um refrescante banho em um dia de sol e calor...

18 de jan. de 2011

No céu com você

 
Não dá prá descrever o rosto de seus filhos no momento em que o avião levanta vôo. Pela primeira vez, o primeiro frio na barriga, o rosto alegre e excitado pelo momento, a respiração por instantes presa. 
Tô no céu com vocês filhos!!
E que todos seus vôos sejam seguros e alegres como esse foi. 
 

10 de dez. de 2010

Dia a dia...

Hoje vou variar. Esse texto é de um colaborador mais que especial. Foi feito prá escola e achei por acaso. Espero que apreciem.  

Moleques
          -Filho, chega de tv. Vai pro banho não demora! O que é isso? Sai agora do banho!
O que? Ainda não fez a lição de casa? Que feio. Filho, você não é tão burro. Aêêê assim que eu gosto.
          Como assim foi mal? A gente estudou tanto. Agora você vai apanhar tããããnto...
          Vem jantar! Já lavou as mãos? já secou? Como assim não está com fome? Vai comer e pronto! Vá dormir...
          Ainda não dormiu?  Você vai acordar cedo amanhã...
          Acorda moleque! Cê tá atrasado! Já fez a lição?...
Tomás  2010




23 de nov. de 2010

Clic 2 - Cartier Bresson

Uma Leica. Era só isso que ele usava. Viveu de 1908 a 2004, pioneiro do fotojornalismo, com classe e muita alma. É isso que suas fotos tem: alma.  
O que prova que não é necessário grande parafernália, tecnologia, firulas para se produzir obras eternas.  

Um artista, retratou seu momento como nínguém. Também registrou a guerra, foi prisioneiro, e fugiu para se aliar à resistencia ao nazismo. Após a guerra se aliou a um grupo de grandes fotografos e criou a agência Magnum. Mas, em primeiro plano, sempre manteve as pessoas, o cotidiano, a vida acontecendo.

Aquele beijo é dele. Com as ressalvas de um erro que cometi em postagens anteriores.  

 

Cartier Bresson é um gênio da arte de fotografar. Um inovador do olhar, até então, de enquadramento convencional. Junto com outros grandes contemporâneos, como Cappa, trouxe o close para o cotidiano. E teve a sorte de ter vivido a Europa em seus dias mais glamurosos, mesmo durante a guerra.
Um mestre. E quando eu crescer, quero chegar lá...

18 de nov. de 2010

Reflexões. Pessoas, o tempo e afetos

              Esse que passou foi um fim se semana especial. Sim, feriado, chuva e frio. Mas o contato com pessoas que andavam um pouco distantes e que fazem parte de minha história foi intenso e em momentos diferentes, e isso trouxe um sabor de reflexão, reavivou lembranças, me fez pensar no presente e no futuro.
     Um
              O tio Arthur querido  fez 80 anos. Um dia espero chegar lá com a alegria de viver e o bom humor que ele tem. Sua história de vida não foi nada simples nem fácil, mas, se tenho em alguém um exemplo de vida e luta, esse alguém é ele. Foi ele o grande responsável por minha formação musical, além de bom pandeirista, é um piadista inteligente.
Tio Arthur, Luis Afonso e Luis Carlos e eu, claro.
              Em sua festa encontrei pessoas que há tempo não via e saudamos o fato de que não estarmos nos encontrando em nenhum velório.
              Penha e Sérgio, Cristiane, Fátima, Regina, Ana Lúcia, Léo e Lurdinha, 'seu' Quim...  
Temos que tomar as devidas providências para que isso não se torne inspiração para um texto no blog, por que então será rotina...
             Mas recordei das pessoas, as que estão por aqui e as que já se foram, os momentos que guardo na memória, cheiros e sons, dias de infância. Cheiro de alecrim do jardim, do aperto de mão forte do primo, do bolo que nos recebia, do caminho na janela do carro. Gente afetiva, simples e sempre sorrindo prá batalha da vida. Gente. Da boa.
         Dois
             Big Pedro veio em casa. Tava meio quieto, conheço. Perdeu pros garotos no botão... Vai entrar com recurso... Acho vou recorrer no STJD, dopado não! Foi tudo culpa do amendoim com groselha?  Não é justo! Da próxima vez vou comprar tremosso. Com fanta.
             E foi embora sem lhe mostrar algumas relíquias arqueológicas que achei por aqui. Fica prá próxima, com a Teca junto dessa vez!

          Três
        Rio de Janeiro, gosto de você! E prometemos solenemente tentar aparecer por ai logo logo.   Wilminha e Vaninha, tô com saudade.


Paixões antigas - Primeiro clic

     Pode parar que não vou contar nada...do que está pensando!

     Esses dias andei pela madrugada vendo um documentário sobre um fotógrafo importante, de quem eu já tinha visto muitos trabalhos e com certeza você também, leitor.
     Fotos são 'textos'. Passam mensagens sempre e fico com Décio Pignatari que diz que não se deve analisar poesia pois a linguagem é a do sentimento. Acho que com as fotos´acontece o mesmo, portanto, melhor olhar e sentir do que dizer.
     Por causa desse documentário, lá do fundo brotou uma paixão antiga que estava adormecida: A fotografia.
                    Esse era o cara:
Robert Capa.

       Não dá prá descrever, apenas ver suas fotos, e já decidi. Vou retomar paixões. Essa é uma delas. Por enquanto, vou postar uma série de fotógrafos que me tocaram algum dia.
Capa esteve presente em momentos históricos fundamentais do século XX e uma mina no início da guerra do Vietnam em 1953, encerrou sua história.


Segunda Guerra

Crianças na neve





Paz

Até os próximos clics.

1 de nov. de 2010

Manifesto

          Preciso me manifestar. Mesmo que digam aqui em casa que ando panfletária. Ora, afinal, não dá prá ficar calada.
          Mulher, ex-guerrilheira, disputando a primeira eleição, séria, inteligente e lider. É prá comemorar.
          Ultrapassar a ignorância da chuva de e-mails preconceituosos, calúnias, mentiras, jogo baixo. Tolerar a fala e a ignorância de quem tem preguiça de ler e se informar sobre os reais progressos que o atual governo tem conseguido. Não é prá qualquer um.
          O governo do presidente Lula não foi perfeito, poderia ter sido melhor em diversos aspectos. Mas no balanço geral, a opção pelos menos favorecidos foi determinante para que se inicie um processo de reequilíbrio social, que pode trazer para o país a médio prazo um aumento na qualidade de vida, na produção e consumo de bens e consequentemente mais empregos e renda, que por sua vez trará equilíbrio econômico, e na retomada do desenvolvimento de ciência e tecnologia; coisa que não foi antes realizada neste país. E, ao invés de observar a valorização dessas conquistas, o que se percebe é um ranço de preconceito e desdém de uma parte da população.         
          Analiso o discurso da classe média paulista, da qual faço parte aliás, como amedrontada pelo perigo de encontrar a sua doméstica na mesma loja em que compra no shopping... Ou por não ter quem contratar sem carteira assinada alguém prá fazer aqueles serviços que não são tão bonitos e que não se quer fazer...
           Sempre crítico, o grande escritor Monteiro Lobato era um observador dos principais problemas sociais do país, e já por aqueles tempos percebia a importância de se interferir em questões estruturais  mais amplas, como pode se observar nessa frase:
                   Todos os nossos males, econômicos, financeiros e morais, (...) provêm de uma causa única: pobreza, anemia econômica. Vou além: miséria. Obs.: Carta a Alarico Silveira, Nova York, 3/5/1928.
          Se Lobato tivesse conhecido Lula, não estaria orgulhoso por observar as opções da política atual? Penso que sim. Em outra ocasião, ao manifestar sua opinião sobre a necessidade de ampliar a alfabetização a todos os brasileiros a um grande veículo paulista, ele foi interpelado por um jornalista que soltou essa pérola: -Meu caro Lobato, se todos forem alfabetizados, quem irá querer pegar no cabo da enxada?           
           Esse é reflexo do pensamento da classe dominante, rica, ilustrada desse país, que não quer perder seus privilégios, confortos e boquinhas...
          Com todo o respeito à diversidade de opiniões, percebo que as análises e manifestações contra esse atual governo e o eleito, são carregadas de pouca informação, leituras de revistas e jornais tendenciosos, visões superficiais e de pouca abrangência.
          Vamos combinar: todos aqui pelo sul reclamavam da grande imigração, da falta de empregos prá tanta gente, da 'deseducação' de quem vinha tentar a vida no sul. Já ouvi frases como 'Nordestinos são moles, indolentes'... 'Esses caras não querem trabalhar' etc. o que, diga-se, é uma grande mentira. De uns anos prá cá não tem mais acontecido grande movimentação migratória, por que será? Teremos que importar mão de obra?? Ou iremos pagar bem???
           E se o nordeste prosperar, será que os industriais e grandes comerciantes não se beneficiarão? E se a economia se equilibrar, não será bom para todos? Ah, mas como irei perder minha hegemonia de classe dominante ??  Ora, meu empregado também trocará de carro todo ano??? Mas puxa, até o porteiro do prédio tem orkut...E terá até aplicação financeira??? Nossa... 
           Panfletária ou não, minha opinião é a de que possamos melhorar essa forma de pensar. De conversas informais no dia a dia a ações educativas planejadas, é necessário o cultivo do livre pensar, o estímulo à reflexão e à comparação de opiniões, rejeitando a parcialidade, o preconceito e o dogmatismo. E espero contribuir para isso nos próximos anos.
           Parabéns mulher. Parabéns Brasil. E vamos à luta.

22 de out. de 2010

Uma questão de posicionamento

         Tenho manifestado meu posicionamento em relação a essas eleições para presidente por outros instrumentos, como o facebook por exemplo. Mas senti a necessidade de me colocar por aqui também, talvez sob forma mais alongada, argumentos de minha vivência, que influenciaram minha formação e minha tomada de decisões quanto a 'de que lado estar' ou porque A e não B.
         De verdade, não tem a ver com esse ou aquele partido ou essa ou aquela pessoa. Essa campanha tem assumido um ranço de  'olha ele, mamãe!...' que realmente desanima.
         Se for observar a influência familiar, eu seria conservadora, daqueles travestidos de social-democratas. Todos são. Sou ovelha vermelha por ali. Princesinha querida, tive bonecas caras, comida na mesa, amor de família, festas de aniversário, aulas de música, ballet, inglês, domésticas a postos prá limpar meu banheiro, etc..
Fato, é que desde sempre tive outra opinião. Outro olhar. Não sei como começou. Talvez por testemunhar o nordestino chegar e se chocar com a cidade na pessoa das domésticas que trabalharam em casa, de hábitos aculturados, sem ler, sem preparo ou referência; encontrar pessoas morando nas ruas (seja qual for o motivo),  isso pode ter acendido o pavio.
         Era antes instintiva, mas desde que pisei pela primeira vez dentro de um barraco de favela, ela, a indignação, se consolidou. E se fortificou com as leituras, debates e aprofundamentos que o estudo e a  a profissão proporcionaram.        
         E em muitas outras ocasiões, como quando entrei em um prédio antigo transformado em cortiço, cheio de ratos que mordiam os dedos das crianças e um banheiro apenas para doze famílias; quando vi morrer na creche uma garota de um ano e meio, por bronco pneumonia que evoluiu, pois a mãe não teve dinheiro prá comprar remédio; mais tarde, quando percorri quilômetros pelo interior de Alagoas para supervisionar salas de aula na zona rural de um município, em que jovens andavam à pé com o lampião na mão para chegar à escola noturna e alfabetizar-se; mesma cidade onde era visível a exploração do povo pelos políticos que construíam com dinheiro público suas mansões revestidas com lajotas e rede nas portas, grandes cisternas, bem ao lado de taperas de pau a pique sem sequer um poço d´água prá beber. Isso que eu relato aqui não era novidade no lugar. Estamos falando de anos e anos de curral eleitoral, de famílias de coronéis que mandam e desmandam pelos recantos desse país. Prá situar no tempo, comecei minha profissão em 1984-85. É só lembrar quem foram os governantes de lá prá cá. Em alguns cantos desse país, a cultura dos Odoricos é tão forte, que nem mais oito anos de Lula iriam resolver.
          Mas, fato é, que ao trabalhar com as camadas sociais menos favorecidas, podemos compreender como pensam, o que sonham. Não posso esquecer o rosto de pais em uma reunião, provocados a pensar em suas vidas, desenhando uma casa para representar seu maior sonho. Para entender esse Brasil, é preciso percorrê-lo à pé, sem guia turístico, entrar nos mercados, beber água barrenta dos açudes (pois é a única que tem prá te oferecer, com carinho), ouvir a banda de pífanos, ver os canaviais imensos pelas estradas e pensar no porque tanta desigualdade social.  E ai, escolher um lado. E foi o que fiz.
          Muito precisa ainda ser realizado. E a opção de um político sempre pesa nas decisões. Trabalho social não é um favor que se presta, mas um obrigação de quem governa. É preciso urgentemente diminuir a desigualdade, a injustiça e a miséria deste nosso Brasil.
          Essa foi a opção - com todos erros e acertos - do governo que agora termina. É preciso continuidade, pois 8 anos não são suficientes prá mudar comportamentos e práticas tão arraigadas há anos e anos. essa é minha opinião.  Se isso é ser de esquerda, então, sempre serei.

15 de out. de 2010

Dia do professor por quê?

               

                "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina"
Cora Coralina
              Em minha vida e na de todos vocês algum dia, passou ao menos um professor. Ou possivelmente,  muitos. Posso dizer que estou mergulhada nesse mundo desde que nasci. Até antes, na barriga de uma delas.
              Mas cheguei à conclusão de que meu dna já veio com o vírus do inconformismo. Ao invés de achar tudo lindo, vejo que não há muito o que comemorar. Congratulações são benvindas, pois essa é realmente uma profissão importante e complexa. Mas dai a avaliar que o quadro é cor de rosa, há uma boa distância.   
              Tudo começou quando, em 1847, D. Pedro I criou  um decreto que instituiu o Ensino Elementar no Brasil. De acordo com a norma, todas as cidades e vilas brasileiras deveriam ter suas escolas de “primeiras letras”. Essa data foi oficializada como feriado escolar em plena ditadura, em 14 de outubro de 1963 (Decreto Federal 52.682/63). Que bom, mais um feriado... e...
               Baixos salários, falta de reconhecimento, falta de incentivo à aperfeiçoamento, falta de tempo para pesquisas, rebaixamento da autoridade do professor pelas famílias e pela sociedade, poucas e parcas condições de trabalho, e se eu for enumerar tudo, um blog é pouco. Mas a profissão de professor ainda serve de mote de campanha política, a educação ainda é tema em vigor para gregos, troianos, bárbaros, nazistas, fascistas e palhaços (com meu respeito à essa denegrida profissão).
               Ainda assim, devo dizer que é uma boa sensação quando alguém chega, do inesperado, no meio de um supermercado qualquer, ou numa rede social te encontra e te reconhece e te diz, puxa, aprendi muito com você, foi marcante prá mim. Ou quando alfabetizei aqueles operários que tinham tantos calos nas mãos e nem conseguiam segurar o pequeno lápis, e diziam:  -Se eu tivesse tido essa atenção quando criança, não teria deixado de estudar.
              Acho que é por isso que eu nunca acho que está tudo certo. Sem reflexão não podemos avançar, e ainda há muito a ser feito.

9 de out. de 2010



Imagine

Teve uma familia com pai e mãe separados enquanto criança.
Seguiu com a mãe, que morreu quando tinha 18 anos.
Resolveu ser músico
Aos 30 era um dos artistas mais influentes de seu tempo e tornara-se milionário.
Podia ter ido para as Bahamas viver de renda. Optou por ser ativista político, defensor de minorias, financiador de projetos sociais.
A mídia o chamou de 'palhaço', o ironozou.
Aos 35 anos, inverteu os papéis com a mulher,  foi cuidar da casa e criar o filho, enquanto ela dirigiria os negócios.
Aos 40 anos, cheio de projetos novos, não teve chance de defesa na frente de um medíocre.
Faria 70 anos hoje.

Abaixo, acesso à canção 'Stand by Me', um tema que ele ouvia quando era adolescente, original de Ben E. King, que virou tema de um filme homônimo, uma história de amizade, de companheirismo.

Longa vida aos artistas libertários!
E, prá vocês, canta John Lennon com seus chegados.

http://www.youtube.com/watch?v=O4_ghOG9JQM

Abraços

José Amaral




YouTube - Vídeos desse e-mailCarregando...

16 de set. de 2010

Complementando...

Achei importante que se completem algumas idéias, para mal entendidos não acontecerem.
Sim, existem pessoas bem intencionadas nesse meio, e é uma coisa comum colocar tudo no mesmo balaio quando estamos descontentes. Mas, quando o povo interfere nas decisões tomadas através de entidades, abaixo-assinados, pressões populares, os benefícios são mais legítimos e representativos, como por ex. o caso da lei "Maria da Penha".
O problema maior a meu ver é a deseducação da população em geral, que não tem critérios para avaliar corretamente em quem vota e cobrar depois. Isso causa um descaso geral: " já que alguém está lá prá fazer, eu não preciso estar preocupado..." 
Sem estar sendo cobrado e fiscalizado e com a cultura popular garantindo que quem está nesses cargos é "autoridade",  quem está com mandato não perde tempo. Utilizam-se de todos os recursos que têm em mãos para beneficiar a si mesmos, votando regras e normas frouxas, aumentando os próprios salários e benefícios, fazendo acordos sinistros... Trabalham de terça à quinta, tem férias de dois meses, reescessos, verbas extras, viagens, etc,etc,etc. A lei lhes concede imunidade, para tirá-los de lá é necessário um belo escândalo e mesmo assim...
Não é à toa que são tantos os candidatos... Ô empregão bão! 
O que precisamos é tomar atitude e também, orientar nossos jovens eleitores a anotar e acompanhar os candidatos em quem votaram. É fundamental que todos estejamos ligados e cobrando deles trabalho sério e comprometido com as necessidades do povo, que afinal, é quem importa nessa história afinal. Todos eles tem e-mail, existem entidades que auxiliam os eleitores a essas ações, as audiências são públicas.
E sou contra anular. Se você não escolhe e cobra, de qualquer forma alguém vai ser eleito. Melhor que você tenha participado da escolha.
Bom voto.

Sinceramente...

Demorei prá escrever. Andamos com a terra tremendo um pouco por aqui. Coisas, pessoas, fatos tristes que dão vontade de dormir e deixar passar tudo. Mas nem sempre isso é possível e nos pedem decisões. Administrar a crise, sem deixar que as marcas, que certamente ficam, fiquem profundas demais. Da vida. 
Fora isso... 
Sinceramente, parei de assistir ao horário eleitoral. No começo parecia um programa de humor, com requintes. Depois começa a dar aquela coisa no estômago de raiva misturada com a sensação de que o palhaço é você mesmo.
Pense assim: Os cargos são públicos, aquilo é um emprego muito bem pago (e como!). Se é um emprego e se é pago com meus impostos, escolhido com nossos votos, são nossos empregados. Devem nos servir, só que não cobramos nada deles. Por isso nos usam prá chegar lá, e depois esquecem de quem votou neles. "-Eu vou é se dá bem..."
 Assim como a imprensa, que também usa a imagem, o escândalo, a velha falácia, a informação distorcida e sem aprofundamento prá formar a opinião pública e manipular a população que nunca prestou atenção em nada, mal e mal sabe escrever, quanto mais avaliar se esse ou aquele dado é verídico.  Marionetes na mão de velhas raposas. Sinceramente.

14 de ago. de 2010

Sexta,13, na Bienal

           Ontem fui à 21ª Bienal do Livro de São Paulo.
           Foi o primeiro dia aberto ao público e nós 4, amantes de literatura e livros, como sempre, à busca de coisas interessantes. Encontramos várias, inclusive fantasiadas de personagens de mangás... tinha até um pintinho amarelo imenso e incômodo, que não sei até agora como conseguiu ver algum livro... 
            Por ser sexta 13, as programações tiveram várias menções ao terror na literatura. De novo vampiros, lobisomens e seus pares pairavam por ali, apesar de estarem um pouco mais fracos que anos anteriores. Terror mesmo foi a vida real. A cada dois estandes você leva um susto com aqueles insistentes vendedores de assinaturas "vocêjáganhouseubrindehoje???"... Sei que apenas estão fazendo seu trabalho, mas são em muita quantidade e seu treinamento é para terem uma abordagem insistente e agressiva. Um terror mesmo...
            Os preços também estavam assustadores, apesar de ser tradição da bienal  oferecer descontos e promoções. Apesar dessa prática, livro no Brasil ainda é um ítem caro e por mais que sejam feitas campanhas para a popularização da leitura, ainda não é fácil manter a população de baixa renda lendo a quantidade de livros/ano que deveria. 
            Segundo a fundação pró-livro, em pesquisa feita em 2007,  
é considerado leitor quem declarou ter lido pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses, sem considerar a qualidade da leitura ou o grau de compreensão desse leitor.
            Isso corresponde a 95,6 milhões de brasileiros, ou (55% da população estudada).
            Entre as respostas, a leitura representa aumento de conhecimento para a grande maioria dos entrevistados, e entre os mais velhos esse valor aparece com mais frequencia. Entre as crianças o valor maior é o prazer ao ler.  Dado interessante é o de que 60% das pessoas entrevistadas não conhece ninguém que venceu na vida graças à leitura... Ler está em 5º lugar entre as opções de lazer, perde para a televisão, ouvir música, rádio e descansar. Um terço dos leitores afirma ler frequentemente, e desses, 55% são mulheres.
            Em relação à qualidade do que lêem, a bíblia está em primeiro lugar. Talvez isso explique a quantidade de editoras focadas em temas religiosos que presenciei ali. Uma verdadeira batalha por doutrinação e captação de leitores, não apenas de uma religião ou corrente. No mesmo corredor, encontramos espíritas, muculmanos, protestantes, evangélicos e católicos, concorrendo a atenção de leitores com a mesma intensidade.
           Mas na pesquisa da fundação, ainda chama a atenção o fato da concentração de leitores mais ativos estarem nas regiões sul e sudeste, e o relato de que 19% dos livros estão nas mãos de 1% da população, 49% dos livros estão nas mãos de 10% da população e ainda,  66% dos livros estão nas mãos de 20% da população. 
E ainda sexta feira 13,  8% da população não tem nenhum livro em casa. 
           Apesar de todas as campanhas de popularização e incentivo a leitura, que diga-se tem dado resultado em comparação a anos anteriores, sabe-se através dessa pesquisa, que os brasileiros sabem da existência de bibliotecas, mas, não as frequentam, compram livros pelo preço, lêem mais revistas que literatura, lêem devagar, tem pouco tempo para se dedicar a essa atividade, muito do que lêem é dentro do ambiente escolar,  e isso resulta,  no Brasil, em uma média de 3,7 livros/ano contando que entre esses estão os livros de leitura obrigatória pelas escolas e os livros didáticos. Se tirarmos os livros de escola, teremos 1,8 livros/ano/brasileiro.
          Assustador.
          Noites do Terror... E o pior é que não se resumem às sextas-feiras...

5 de ago. de 2010

Prá rir

Se fosse o Cacau, tinha comido o prato e as florzinhas como sobremesa...

Ah, esse é o Cacau:

12 de jul. de 2010

Coisas

Coisas que andei escutando por ai:

Que polvos são videntes... E que vão se aposentar e passar férias na España tomando sol em Barcelona.
Que toda mulher merece um Casillas em sua vida.
Que não se fazem mais juízes como antes, (mas essa meu sábio avô já dizia).
Que a rainha nunca mais entra em vestiário, ao menos com essa equipe de secretários... Ela deve ter reclamado bastante, afinal, logo o Puyol de toalha...
Que a copa da África foi um sucesso de organização e que temos que aprender com eles. Só ainda não sei como vão esconder tantas favelas e homens de rua pelas capitais afora.


E dá-lhe 4 longos anos escutando esse assunto! Tomara que ninguém esqueça da realidade!
E aquele símbolo é horrível!!
E aquela cerimônia parecia auditório de escola em apresentação de trabalhos de fim de ano. E a apresentadora ainda diz que a música brasileira tem diversidade e mistura de influências... E aparece prá exemplificar isso, a bossacucanova cantando?!?!
São coisas...  coisas...

8 de jul. de 2010

Fiquei alegre, chegaram as férias.
Fiquei triste, não vai dar prá viajar.
Mas a gente inventa por aqui mesmo.
Fiquei feliz, revi meu amigo Pedro.
Fiquei meio assim que a Teca não veio, mas, tava trabalhando e isso é bom.
Fiquei nem ai, o Brasil saiu da copa. Melhor, porque o povo põe o pé no chão. Chato, porque tem gente que perde dinheiro.
Fiquei indignada e com nojo... As TVs não deviam por aquele cara comendo caca em rede via satélite.
Mas fiquei irônica... a dieta dele não adiantou. O time dele não disputa a final...
Fiquei orgulhosa, corre sangria em meu sistema nervoso... a Espanha vai prá final.
Fiquei horrorizada com o caso do goleiro. Ninguém está pensando naquele bebê...
Fiquei com frio bom na barriga, o livro sai logo.
Responsabilidade...
Ouvi a Elis. Tinha um caderninho com letras de música quando criança.
Essa música, do vídeo ali, estava lá. Eu sabia de cor!
Fiquei com vontade de cantar.
Quem sabe?